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Auto Gestão e Enraizamento nos empreendimentos de Turismo de   Base Comunitária

Orientador:Bernardo Parodi Svartman
  Supervisora:Carlos Lima

Resumo


O presente projeto de pesquisa trata da realização de estudo sobre a gestão de empreendimentos turísticos nas comunidades do Ivaporunduva (município de Eldorado), Marujá (município de Cananéia) e Mbya-Pindoty (município de Pariquera Açu), as quais desenvolvem o Turismo de Base Comunitária no Vale do Ribeira, tendo como pressupostos a autogestão e a economia solidária.
Esta pesquisa integra o Projeto Experiências de Turismo de Base Comunitária no Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil, desenvolvido pela Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros e Instituto de Pesquisa da USP, no âmbito do Programa de Pré-Iniciação Científica da USP.
O estudo pretende descrever a forma de administração e distribuição da renda advinda do turismo em cada comunidade, as condições dos empreendimentos de turismo (higiene, organização, manutenção, atendimento), a participação, organização e relacionamento dos grupos de trabalho seja artesãos, barqueiros, guias e monitores ambientais, donos de pousadas e restaurantes, as estratégias de divulgação e captação de clientes e ainda verificar a relação destas comunidades com o mercado turístico.
As pesquisas serão realizadas por um docente e oito discentes das ETECs de Iguape e Registro, orientados por um professor do Instituto de Psicologia da USP. Terá como metodologia básica a qualitativa descritiva, com pesquisa bibliográfica e entrevistas com aplicação de questionários de perguntas abertas e observação a campo.
Objetivos

  • Identificar a forma ou formas de administração dos empreendimentos turísticos comunitários (familiares e coletivos) presentes nas três comunidades envolvidas no projeto;
  • Verificar o entendimento dos proprietários de empreendimentos turísticos com relação ao planejamento e gestão do seu negócio, controle coletivo dos processos de produção e divisão de tarefas, bem como o grau de satisfação com relação à rentabilidade do negócio.
  • Descrever como as organizações autogestionadas, no caso as associações comunitárias destas comunidades, definem e buscam seus objetivos, deliberam sobre os meios de alcançá-los, executam suas políticas internas e dividem os benefícios obtidos do turismo.
  • Identificar como ocorre a relação entre os diversos integrantes da cadeia produtiva envolvidos com a atividade de turismo comunitário nestas comunidades.
  • Verificar as estratégias de divulgação e promoção do turismo adotadas por estas comunidades.
  • Promover a qualificação em atividades de pesquisa para professores e jovens do ensino médio profissionalizante.

Justificativa
Como outros setores da economia capitalista, o “negócio-turismo” se baseia na apropriação e exploração da sociedade e do ambiente visando a geração do lucro. Os empreendimentos relacionados ao setor, com poucas exceções, possuem um ciclo composto de três etapas: (1) busca de destinos, (2) incentivo ao “desenvolvimento” e (3) seguir em frente, buscando outro destino, quando o ponto de saturação/novidade foi atingido. Esse fenômeno é conhecido como “ciclo de vida” de uma comunidade anfitriã de turismo – termo que designa às localidades (distritos, bairros de municípios) do interior ou litoral de um país, cuja organização econômica volta-se para o turismo (Joseph e Kavoori, 2001).
Em muitas comunidades anfitriãs, o turismo tem produzido desigualdades sociais e impactos ambientais, alijando a maioria da população local dos recursos e benefícios gerados pela exploração dessa atividade, bem como dos processos de tomada de decisão e planejamento que envolvem o ambiente no qual vivem (Ribeiro, 2008). Diversos estudos têm mostrado que o desenvolvimento do turismo de forma não sustentável – ou seja, ecologicamente (in)correto, economicamente (in)viável, socialmente (in)justo e sem participação comunitária e enraizamento social –, apenas contribui para o desequilíbrio ecológico e para a desagregação social das comunidades anfitriãs (Coriolano, 2001; Mbaiwa, 2004; Bauer, 2008; Santos e Figueiredo, 2009). Segundo Coriolano (2006) o modelo de desenvolvimento do turismo adotado pelos grandes empreendedores e governos neoliberais objetiva acumular lucros e divisas, por conseguinte nunca cumprirá o ideal de gerar emprego e distribuir renda para todos. Contudo, o “negócio-turismo” deixa lacunas não ocupadas pelo grande capital, que se tornam oportunidades para aqueles excluídos desta concentração, criando-se assim um modelo não hegemônico, alternativo e comunitário de turismo e cujas principais características são: a cooperação, a autogestão, a valorização da cultura e do modo de vida local, a conservação da natureza e a distribuição dos recursos gerados com o turismo. Características essas que também estão presentes na economia solidária, entendida como uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza centrada na valorização do ser humano e não do capital, na qual os participantes são proprietários coletivos dos empreendimentos e como proprietários assumem a gestão, as responsabilidades e os riscos no negócio, e ainda trazem consigo seus sonhos, suas aspirações e a busca de segurança para si e para seus companheiros na vida de trabalho, e na vida familiar e comunitária. Frente a este contexto surgem experiências, em diversas partes do mundo, de desenvolvimento de um modelo de turismo protagonizado pelos próprios moradores das comunidades. O conjunto dessas experiências tem sido denominado de Turismo de Base Comunitária ou Turismo de Base Local. Neste modelo, os empreendedores, os gestores e os maiores beneficiários do turismo são os moradores, que organizados de forma coletiva ou em núcleos familiares prestam na localidade onde vivem diferentes serviços aos turistas. No Turismo de Base Comunitária os moradores são ao mesmo tempo os articuladores e construtores da cadeia produtiva do turismo. Isso contribui para que a renda e o lucro permaneçam na comunidade e para que os atores sociais locais se envolvam de forma mais direta com as atividades. As necessidades e expectativas destes grupos formam um elo forte, que se sustenta na solidariedade e cooperação. A sinergia, o nível de cooperação, expressa o grau de autogoverno das pessoas que fazem parte dos empreendimentos. “A autogestão só é possível quando o grupo controla os meios e os produtos da produção” (Carvalho, 1996, p. 120). Todos têm o direito de participar da tomada de decisões e autonomia legítima do grupo para defender os valores e objetivos da organização. A homogeneidade do grupo não representa a perda da individualidade, mas o domínio que cada um tem de si, num processo emancipatório, em que os interesses individuais são congruentes com os interesses do grupo. Os direitos do indivíduo não são destituídos em troca de um salário ou de um posto de trabalho, o indivíduo é autônomo, e o seu grau de comprometimento e de responsabilidade advém da consciência da importância que o seu trabalho possui para o grupo. Desta forma o Turismo de Base Comunitária abre espaço para que a comunidade possa se apropriar de ferramentas para o desenvolvimento local ao mesmo tempo em que se beneficia da comercialização de produtos e serviços (Carvalho, 2007). Todavia, esse modelo de turismo não deve ser tomado como meio de expressão sectária, visto que é impossível praticá-lo de forma isolada. Existe a necessidade de entrelaçamento entre setor público, iniciativa privada e população local, para que os moradores tenham acesso aos meios e recursos adequados para oferecer seus produtos e serviços. Trata-se, portanto, de uma oportunidade de desenvolvimento sustentável para uma comunidade organizada ou em vias de autoorganização. A autogestão envolve o autoconhecimento e auxilia a visualização das dificuldades e limites, e ainda busca potencializar o que já existe para superar as dificuldades e gerar novas idéias para o desenvolvimento sustentável. Esta pesquisa se faz necessária para verificar o grau de desenvolvimento e organização do turismo nas comunidades do Ivaporunduva (município de Eldorado), Marujá (município de Cananéia) e Mbya-Pindoty (município de Pariquera Açu), a sustentabilidade econômica dos empreendimentos, o que está dando certo, os principais desafios e o que realmente é viável, tanto do ponto de vista da realidade da comunidade local como também do mercado turístico, a fim de que os resultados e experiências possam ser disseminados e aplicados em outras localidades da região.
Metodologia
O trabalho será desenvolvido por meio de estudo descritivo do tipo qualitativo planejado em duas etapas. Na primeira será feito um levantamento documental e bibliográfico sobre as três comunidades e os temas: Organizações Comunitárias, Vale do Ribeira, Turismo de Base Comunitária, Economia Solidária e Auto-gestão.
Na segunda etapa da pesquisa será realizada observação de campo nas três comunidades e entrevistas. Por meio da observação de campo pretende-se  levantar informações in loco sobre: forma de distribuição do trabalho,  gerenciamento das atividades, atribuição de responsabilidades, padrões de rotina, identidade dos trabalhadores e parcerias estabelecidas.
As entrevistas, por sua vez, serão feitas com lideranças e moradores, com monitores ambientais e guias de turismo que trabalham nas comunidades e com profissionais de agências de turismo e de escolas que enviam visitantes para essas localidades.
Por meio das entrevistas será possível verificar em que medida as experiências de turismo de base comunitária envolvem e sustentam processos de enraizamento, mostrando se o desenvolvimento desta atividade econômica estimula ou não a organização de projetos profissionais comprometidos com a preservação da cultura local e a formação de uma identidade profissional engajada politicamente na construção de um turismo sustentável.
O projeto terá duração de 12 meses, será realizado com apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP e do Centro Paula Souza e por meio de parceria entre o Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP e a Escola Técnica Engenheiro Narciso de Medeiros (Etec/Iguape) do Centro Paula Souza. As instituições parceiras já trabalharam juntas no projeto “Promoção de Direitos de Crianças e Jovens em Comunidades Turísticas”, realizado entre 2008 e 2009 com apoio do Ministério do Turismo e de diversas organizações da sociedade civil e do poder público. O projeto viabilizou a publicação do livro “Promovendo os direitos de mulheres, crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo do Vale do Ribeira”, organizado por Martins, Santos e Paiva (2009), que visa subsidiar iniciativas de promoção e proteção dos direitos articuladas com a prevenção às DST/AIDS e ao uso abusivo de álcool e outras drogas nas comunidades anfitriãs de turismo.
O apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP refere-se à concessão bolsas de estudos de pré-iniciação científica que serão distribuídas entre 8 alunos dos cursos técnicos de turismo receptivo, meio ambiente, agropecuária e informática da Escola Técnica Engenheiro Narciso de Medeiros, localizada em Iguape, e alunos de administração da Etec de Registro.
A orientação do projeto de pesquisa ficará a cargo de um professor doutor da área de psicologia da USP e caberá ao  professor Carlos a supervisão das atividades dos alunos bolsistas das Escolas Técnicas. O supervisor também será responsável pela seleção dos alunos bolsistas, entre aqueles candidatos que apresentem boas notas, interesse por pesquisa e tenham vontade de realizar seu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC) vinculado ao projeto, bem como acompanhar o desenvolvimento das pesquisas de pré-iniciação científica dos alunos sob sua supervisão por meio de reuniões semanais; mediar à relação entre a Comissão de Pesquisa do IP/USP e os alunos sob sua supervisão;  participar dos encontros de orientação, supervisão e treinamento com o orientador da USP; participar das visitas monitoradas ao Instituto de Psicologia e ao Campus da Cidade Universitária;  participar das visitas monitoradas às comunidades;  orientar as atividades de transferência de experiências dos alunos do programa para a Etec/Iguape e redigir relatório circunstanciado sobre as atividades realizadas e resultados obtidos com o programa.
Os alunos bolsistas, que dedicarão 8 horas de trabalho semanais à pesquisa, participarão de todas as etapas do projeto por meio de atividades como: a catalogação de documentos sobre as comunidades; o levantamento e a produção de resumos de livros e artigos sobre os temas de interesse do projeto; a realização de observação de campo e entrevistas com lideranças e moradores das comunidades, monitores ambientais e guias de turismo, a sistematização das recomendações e lições aprendidas com as experiências de turismo de base comunitária investigadas e apresentação das mesmas para as comunidades e alunos da Etec.

 

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  • Item 5